Em “Matemática do amor” todos os clichês previstos do cinema convencional podem ser notados: atmosfera indie, história açucarada de amor, garota em conflito, tradução péssima de título, Jessica Alba no papel principal, entre outros que você mesmo pode listar ao assistir o filme. Porém apesar de todos esses tópicos sofríveis, o filme consegue surpreender ao tocar sensivelmente em alguns pontos importantes da Educação Infantil que fazem valer o aluguel do DVD ou os minutos de download. Aparentemente ingênuo e despretensioso, este filme ilustra uma série de conceitos importantíssimos para entender Vygotsky e o cenário do ensino atual.
A protagonista da história, Mona, após uma série de conflitos pessoais, consegue um emprego como professora de matemática. O detalhe é que ela abandonou a faculdade antes de concluí-la e não tem a menor noção de como é ser uma professora. O desenrolar da história mostra essa sua jornada bastante caótica de autoconhecimento. Como é que uma “pessoa comum” se torna um professor? Em que medida suas crenças pessoais e sua bagagem emocional influenciam o importante papel social de ser o mestre responsável por uma classe?
A resposta é que só há uma maneira de uma pessoa se tornar professor: sendo. Vemos isso empiricamente quando vamos a campo para o estágio. Não há fórmula mágica de transformação. Ainda que o preparo, leituras e estudos sejam cruciais, só entendemos e lapidamos nosso papel ao vivenciá-lo. E conseqüentemente nossa bagagem pessoal vai inevitavelmente influenciar o tipo de professor seremos. Não há como existir objetividade completa, pois estamos falando em seres humanos complexos. A teoria vale, mas não há como prever, padronizar e robotizar esses seres múltiplos chegando a único tipo de professor ideal. Cada pessoa, sendo singular, se torna um professor singular. O que não há como contestar é a força que esta profissão tem como modelo na vida do estudante ao longo de toda sua vida. É mais que uma profissão, é um papel social.
O filme ilustra isso com bastante ênfase. Mona está com a vida pessoal em ruínas, mas quando está em sala tem que lidar com as múltiplas personalidades dos alunos, dos conflitos individuais de cada um (uma mãe com câncer, pais que se separam, aluno rebelde, aluna que urina em sala...), ser responsável (isso será importante para o final do enredo) e ainda assim cumprir seu principal dever que é ensinar. Este é o conflito gostoso de ser professor: apesar de todas as nossas fraquezas e problemas individuais, há um papel esperado (pela escola, pelos pais e alunos, pelo sistema escolar, pelas exigências da profissão) a ser cumprido, porém cada um desempenhará de forma única, em um desafio diário.
E, para começar, a protagonista instintivamente escolhe iniciar seu papel como professora dentro daquela escola através da linguagem (visual), transformando o ambiente em algo mais lúdico e verossímil para uma classe de 3ª série. Atitude acertada, já que presenciamos atualmente a perda da ludicidade no ensino infantil em detrimento das exigências múltiplas do currículo e do letramento cada vez mais cedo. Ao colorir o ambiente, desenhar números nas janelas, fabricar móbiles, fazer caixas de papelão transformarem-se em sinais matemáticos, ela resgata algo fundamental para as crianças: a brincadeira. E suas descobertas não param aí. Ela propõe atividades diferenciadas para poder ensinar os números para as crianças de forma mais criativa, propondo interações e permitindo uma maior intimidade dos alunos com aquele universo matemático. Isso é visível na cena em que propõe que eles encenem uma equação humana com seus corpos, ou quando vão à lousa para pensar o que é “maior que ou menor que” na vida, e etc.
Algo que me interessou bastante no método novato de Mona é que ela usa como ponto de partida a CONVERSA. Ela quer saber qual o nome dos alunos e qual seu numero favorito, ela está sempre dialogando, abrindo espaço para opiniões e assim se aproxima deles e da realidade subjetiva de cada um, ou seja, ela dá voz às crianças em suas aulas.
Isso foi algo que notei empiricamente em meus estágios como um dos maiores problemas da educação infantil: os alunos, por conta da pouca idade, são considerados por vezes incapazes de ser um sujeito ativo do processo educacional, enquanto na verdade eles são perfeitamente produtores e reprodutores de cultura. Pensa-se que eles são muito pequenos, e portanto limitados, para dizer corretamente o que sentem, o que querem e esperam da escola e para intervir no ensino, mas isto é um equívoco. Ouvir as crianças é algo fundamental no ensino infantil e pode ser surpreendente a capacidade crítica de alunos tão pequeninos.
No filme, nossa personagem vai ainda além, e propõe a inteligente atividade denominada “Números e Materiais” onde ela permite que eles tragam sua realidade de fora (ou seja, sua bagagem pessoal e emocional) para dentro da sala de aula, trazendo de casa algum objeto que lembre um numero. Assim, os alunos trazem mangueiras de hospital da mãe com câncer, o braço mecânico do pai e coisas que fazem parte de sua realidade e universo particularíssimo. Dessa forma, através da disciplina, Mona permite que eles levem sua vida real para a escola, vendo sentido nela e vislumbrando uma possibilidade de intertextualidade e aplicação real daquele conteúdo em suas vidas. Eles notam que vida dentro e fora da escola podem se conectar. E não só isso, através dessa intervenção, a professora consegue compreendê-los melhor, conhecendo mais sobre a vida pessoal de seus alunos, algo fundamental quando se dá aula para crianças. Ao dar voz a eles ela está considerando a narrativa pessoal desses sujeitos (ainda que dentro da forma desajeitada que é a característica da personagem).
Na perspectiva Vygotskyana do modelo histórico-cultural o homem é um ser social, ou seja, as relações entre os homens são cruciais para o desenvolvimento. Neste sentido, a atuação e intermédio de outras pessoas são muito importantes para o processo educacional, sendo o professor uma ponte entre o conhecimento e a subjetividade e os limites de cada um dos alunos (conceito de zona proximal). Na educação infantil o professor seria a mediação para despertar o interesse das crianças para que elas façam descobertas, aprendam e se desenvolvam.
Para isso, a linguagem é instrumento e matéria prima do processo. Se para Vygotsky “a fala não pode ser descoberta sem o pensamento”, o papel do professor perfeitamente ilustrado na figura de Mona é instigar, mediar e interpretar essas expressões diárias das crianças. As aulas da professora do filme refletem jogos, interações e brincadeiras que se tornam o gatilho perfeito não só para o aprendizado como também para a ressignificação da escola e dos contextos individuais de cada criança.
A partir disso, o terreno para uma intervenção pedagógica fica muito mais claro e possível. O papel da professora da história toca em um ponto muito importante para esta discussão: o brincar como parte integrante do processo educativo e o papel de transformação social que cabe ao professor. Se Mona fosse uma aluna de estágio de nossa classe poderíamos dizer que ela alcançou o impacto desejado com sua intervenção naquela sala de aula. Ainda que algumas conseqüências tenham sido trágicas ao longo da trama, ela consegue transformar o ensino de matemática (disciplina bastante temida no currículo), consegue motivar-se e motivar os alunos, lidar com a individualidade deles, ser uma ótima mediadora escola-individualidade, propor uma metodologia lúdica nas atividades para combater o encurtamento da infância (tão típico atualmente nas propostas das escolas) e consegue ser mais do que interdisciplinar. Mona é transdisciplinar, pois ela consegue ir além da sua disciplina, transgredindo e mostrando que há abertura e espaço para o outro e para o conhecimento do outro, gerando assim a possibilidade de um ensino mais eficaz e de uma relação mais verdadeira.
Bruna (RA 059276)
Bruna (RA 059276)

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