sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

RELATÓRIO FINAL DE ESTÁGIO NOME: PEDRO J.V.Z. FANTINATTI


  
TEMA: Ensino e Aprendizagem com foco na perspectiva histórico cultural

  1. OBSERVAÇÕES GERAIS:
O estágio foi desenvolvido em uma escola estadual, localizado na região metropolitana de Campinas. Com observação e intervenção nas aulas de Sociologia e Geografia pelo próprio autor. Estou lecionando como professor eventual desde o segundo semestre de 2011, com uma turma do 2º ano do ensino médio, que possui 47 alunos matriculados, mas com 35 freqüentando, no período noturno. As observações se concentraram apenas nesta turma.
Os pontos positivos da turma estão relacionados ao desempenho em relação aos exercícios, são produtivos para com eles, mas um pouco mecânicos com vista à recompensa em forma de pontuação, são participativos. Há numerosos destaques individuais, tanto em participação como em desempenho.
  1. DIFICULDADES OBSERVADAS:
Foram muitas as dificuldades encontradas, sendo as que mais chamaram a atenção: indisciplina (muita, principalmente com conversa fora do tema e falta de atenção), barulho (falam alto e ao mesmo tempo), dificuldades em dialogar uns com os outros, não ouvem o colega, sendo estas as dificuldades mais gerais; já em casos mais específicos, realizam atividade de outras disciplinas em sala, não fazem as atividades propostas, há falta de interesse e alunos que só copiam.
Em se tratando de conflitos explícitos houve poucos, já os conflitos implícitos se referem a grupo de alunos que rejeitam aulas explicativas teóricas e atrapalham correção de exercícios, saem da sala, impedem o diálogo entre colegas e entre colega e professor sobre o tema. Alunos com dificuldades em trabalhar em grupo ou que não querem trabalhar em grupo por motivo pessoal. Há um individualismo muito forte entre eles.
Dificuldades pedagógicas, falta de experiência com administração do tempo e dinâmica escolar. Busca de envolvimento dos alunos. Utilizei diferentes pedagogias, mas basicamente a histórico-cultural e de certa forma a pedagogia relacionada às particularidades do educador. Em todas houve dificuldades, mesmo assim considerei o resultado das avaliações acima de minhas expectativas.
Houve também problemas com a estrutura escolar, dispensa de alunos por falta de professores e problemas com as instalações da escola devido às chuvas.
  1. ANÁLISE TEÓRICA:
A referência de pedagogia tradicional utilizada neste trabalho é de forma simplificada, pode ser resumido em: exposição de teoria e exercícios de conferência e assimilação, que entre os muitos problemas desta pedagogia destacamos os conteúdos arbitrários e descolados da realidade dos alunos, que associado aos problemas relatados dificultou sua eficiência.
Por isto, a pedagogia histórica-cultural, ao propor a interação como meio onde se realiza o aprendizado social contribui para analisar o ambiente escolar e propor estratégias de ensino mais eficazes, até porque em Vygotsky o conhecimento é construído socialmente e na interação e mediação com o outro. Além disso, há um histórico do aluno anterior a escola e que é a base psíquica e cultural do mesmo e de onde deve partir o trabalho de ensino, em que o diálogo dos conceitos espontâneos com os científicos é mediado pelo outro, que pode ser o professor, que seria a principal referência intelectual no caso escolar.
Como parâmetro desta perspectiva é possível considerar a “zona de desenvolvimento proximal”, que se trata da diferença entre o processo de aprendizagem e o processo de desenvolvimento, sendo a capacidade do indivíduo de resolver problemas e atividades educativas de maneira autônoma (desenvolvimento real), no contraste com o desenvolvimento auxiliado pelo “outro” levando a poder resolver problemas para além do desenvolvimento real (desenvolvimento potencial), mas com ajuda, o que faz com que interaja o “inter” com o “extra” subjetivo, ou seja, expande a psique subjetiva em sua expressão simbólica na interação com o simbólico social de maior complexidade.
Isto pode ser exercitado pela iniciação da atividade pedagógica com perguntas que buscam o conhecimento prévio do aluno sobre determinado tema, a partir deste o professor pode mediar suas colocações teóricas e explicativas para socializar o conhecimento científico.
Assim o desenvolvimento de um ambiente de diálogo intenso e colaborativo se expressa como a melhor estratégia.
  1. PROPOSTAS DE AÇÃO:
As propostas utilizadas foram basicamente atividade em grupo e individual, inversão do método exposição/exercícios, ficando então da seguinte forma: primeiro exercícios para conhecer a relação dos alunos com o tema, correção e exposição teórica, novos exercícios. Também foi realizada atividade de debate em roda reflexiva, com o tema “a mulher no mercado de trabalho e na sociedade”, com o professor como mediador e relator, as principais idéias eram colocadas na lousa, o intuito seria avançar a proposta para alunos fazerem a relatoria e por último fazerem a mediação.
E ainda debate com filme, produção cinematográfica variada e finalmente o uso de música temática para debate.

  1. RESULTADOS:
Em geral eles demonstravam um rendimento melhor quanto à resolução de exercícios, mas eram pouco críticos com o próprio trabalho, havia também muita cópia, mas não era a maioria. Nos trabalhos em grupo geralmente eram mais participativos, mas houve temas que não desenvolviam bem, porém, geralmente o diálogo era muito melhor, mas havia a necessidade de ser repetitivo. Alguns poucos alunos não gostavam de trabalhar em grupos maiores (com mais de dois), o problema desta opção é que limitava a interação, infelizmente também havia muita dispersão.
As correções e exposições teóricas foram as maiores dificuldades, em várias aulas os alunos foram pouco produtivos, eles impedem a construção de um raciocínio coletivo e mesmo a própria aula, nestes momentos, quando possível, eu tentava fazer alguma conexão com o contexto da própria sala, mas isto muitas vezes não foi possível. O individualismo é uma forte barreira para uma estratégia focada no diálogo e na mediação.
Já os debates foram muito produtivos, com destaque para a participação das mulheres com bons argumentos, foram cansativos, porque eles não têm familiaridade com o formato, não sabem ouvir os contra argumentos e alguns se comportam como na “torcida”, fazem “agito”, mas não participam com argumentos, mas em geral foi bom, provavelmente um dos melhores momentos.
No caso da utilização de filme e música associados ao debate, somente a atividade com filme foi possível, foi utilizado o curta metragem “Ilha das Flores” de Jorge Furtado. A proposta era que eles, desta vez, participassem também da relatoria. O debate foi proveitoso, mas não fizeram a relatoria, mesmo assim a participação foi dentro da expectativa, houve desta vez a necessidade de estimular mais o debate porque não havia opositores e sim grande consenso sobre a temática. Por fim, foi um bom resultado.
  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Foi um grande desafio como educador e estagiário, sujeito e objeto ao mesmo tempo, porém considero válido e mesmo fundamental esta experiência que tive oportunidade de realizar.
Agradeço desde já todos os trabalhadores que contribuíram para este estágio, com especial atenção aos colegas docentes que me trataram muito bem e também a direção.
Devemos reconhecer a “dura” realidade das escolas públicas em geral, são necessárias profundas mudanças, mas de todos os elementos envolvidos, aquele que se torna o sujeito mais dinâmico nas mudanças ou transformações, é o elemento humano, com foco no docente. Obviamente, isolado, sua possibilidades são limitadíssimas, porém das variáveis deste sistema, é quem tem uma das mais fundamentais funções, com destaque para a possibilidade de ser o mediador entre os múltiplos atores sociais da escola, o professor é o sujeito que “conecta” alunos, professores, funcionários e direção, sendo este um propenso campo de atuação.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARCHANGELO, A. Amor e Ódio na Vida do Professor: passado e presente na busca de Elos Perdidos. São Paulo: Cortez, 2004.
AGUIAR, M. P. Adolescentes e Autoconceito: um Estudo Sobre a Constituição Social e Histórica da Subjetividade no Contexto Escolar. Espírito Santo: UFES, GT: Psicologia da Educação / n.20, 2004.
BION, W. R. Estudos Psicanalíticos Revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
FREUD, S. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
GRAMSCI, A. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986.
IASI, M. Metamorfoses da Consciência de Classe. São Paulo: Expressão Popular, 2006
KLEIN, Melaine. Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LARAIA, R. B. Cultura: Um conceito Antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
LEFEVBRE, H. Lógica formal: Lógica Dialética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
LOPEZ, R. E. Introdução à Psicologia Evolutiva De Jean Piaget. São Paulo: CULTRIX, s/d.
MACHADO, L. Politécnica, Escola Unitária e Trabalho. São Paulo: CORTEZ, 1989.
MARX, K. O Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
NOVAK, J. D. Uma teoria de Educação. São Paulo: Pioneira, 1981.
OLIVEIRA, M. K. Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento:Um Processo Sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1997.
SAVIANI, D. Escola e Democracia. Campinas: Editores Associados, 1993.
_________. Pedagogia histórico-crítico. Campinas: Editores Associados, 1999.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

2 comentários:

  1. Bruna La Serra (059276)6 de dezembro de 2011 às 22:43

    Pedro, bem bacana você ter conseguido desenvolver bem o debate com os alunos. Acredito que para as aulas de Sociologia isso seja fundamental. Acompanhei uma classe pública de sociologia num estágio anterior e, apesar das limitações e dificuldades também encontradas, os debates a longo prazo proporcionaram bons resultados, maior motivação e aproximação dos alunos com a disciplina. Acho que o caminho é bem esse que vc trilhou mesmo! E quanto à sua colocação de ser sujeito e objeto aos mesmo tempo, também senti este dilema!

    bjs

    Bruna

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  2. Ao que parece, Pedro, o trabalho deve ter deixado uma história positiva na formação desses alunos tb.
    Deixarei comentários mais específicos no Ensino Aberto, sobre seu relatório. Veja lá depois...
    Heloísa

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