sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

RELATÓRIO FINAL - Maximiliam A. H. Ferreira RA:063143

RELATÓRIO FINAL DA DISCIPLINA EL874-J
Maximiliam Albano H. Ferreira – RA: 063143

As atividades de Estágio realizadas no decorrer do semestre foram inspiradas pela perspectiva sócio-histórica de Vygotsky, especificamente as questões da Linguagem, do Letramento e da Interdisciplinaridade. O estágio foi realizado em uma escola pública estadual no bairro do Taquaral, na cidade de Campinas. Após algumas observações do ambiente escolar, foi organizado um roteiro e realizado um plano de ação para intervenção no ambiente escolar.

A PRIMEIRA IMPRESSÃO DA ESCOLA
Inicialmente, visitei a escola objetivando reconhecer sua dinâmica e observar as relações estabelecidas entre os alunos, professores e funcionários, além de uma possível interação com a comunidade. O estágio foi realizado principalmente nas aulas de Física, no período noturno, no qual funcionavam apenas duas turmas: 2º e 3º anos do Ensino Médio, cujo grupo de alunos era formado especialmente por trabalhadores. A primeira impressão tida foi a de absoluto caos e desorganização: devido à falta de funcionários (além dos professores dando aula, apenas a Coordenadora Pedagógica permanecia durante todo o turno na escola, portanto ela era a única responsável por supervisionar toda a escola no período), ninguém parecia se importar realmente com o que ocorria ali, alunos chegavam e deixavam a escola em qualquer momento e entravam e saíam das salas de aula como bem entendiam, os professores, por sua vez, pareciam propensos a ignorar quaisquer situações “átipicas” dentro da escola. No período noturno as aulas não seguiam um cronograma fixo devido às faltas excessivas dos professores ou mesmo a quase que completa ausência de alunos nas turmas. Fisicamente, a escola não era muito atrativa. Com alguns problemas como janelas e carteiras quebradas, as salas de aula um pouco sujas, toda a escola parecia relativamente abandonada.

QUESTIONAMENTOS E INQUIETAÇÕES: ROTEIRIZANDO O ESTÁGIO
As aulas da disciplina de Física que eu acompanhava pareciam, por algum motivo, fugir completamente às “regras” de desordem do restante da escola. Naquelas aulas o professor detinha, minimamente, a atenção dos alunos e, diferentemente de outras aulas às quais acompanhei, nas aulas de Física havia um aproveitamento evidente por parte dos alunos. Alguns deles se interessavam de tal forma pelos conteúdos da aula que traziam, além das dúvidas, diversas curiosidades e indagações acerca dos temas trabalhados. A diferença era tal que não raras vezes presenciei alunos chegando apenas para assistir à aula de Física ou me dizendo que estavam vindo à escola naquela semana, apenas naquele dia, para assistir àquela aula.
Infelizmente, mesmo as aulas de Física, às vezes contavam com empecilhos: a falta de gestão da escola era um desses problemas. Numa de minhas primeiras visitas à escola, por exemplo, a própria Coordenadora interrompeu a aula para perguntar ao professor se ele já estava acabando, pois já estava tarde e todos, inclusive ela, queriam ir para casa descansar. Nessa ocasião o professor estava tirando dúvidas e dando informações sobre ondas devido à curiosidade de um aluno, porém, depois do incidente, com a Coordenadora esperando o término da aula, ele logo terminou e deixou a conclusão das atividades para a semana seguinte.
Dada a abertura do professor e orientado pela Profª Heloísa da disciplina de Estágio da Universidade, defini que minha intervenção seria realizada nas aulas de Física, visando discutir, sob a ótica de Vygotsky, a própria estrutura da escola e identificar sua relação com as vivências de cada de cada aluno procurando fazer com que eles mostrassem seus pontos de vista sobre a diferença, tão clara, entre as aulas de Física e as outras aulas. Os conteúdo da área de Física teriam lugar no processo paralelamente, como um pano de fundo, sempre permeando a relação dos alunos com as aulas dessa matéria, em seguida promovendo o diálogo com outras aulas e disciplinas através de um processo interdisciplinar, depois com o ambiente escolar como um todo, provocando, desse modo, senão uma reorientação norteada pela meta do letramento como parte do processo de inserção social, ao menos uma reflexão mais profunda dos outros professores e dos gestores sobre os rumos da escola.
Defini um cronograma de atividades para as próximas aulas, levando em conta os conteúdos que o professor havia programado, porém, as faltas dos professores e as aulas desconexas da realidade dos alunos os desestimulavam de tal modo que qualquer feriado ou dia em que não havia aula, fosse no começo, no meio ou no final da semana, já servia de pretexto para desconsiderar o restante dos dias úteis. Assim, houve dias em que os alunos simplesmente foram embora por não quererem ter aula, outros, devido às muitas ausências de professores, o desfalque fazia com que apenas uma das turmas do noturno pudesse ter aula ou mesmo nenhuma delas. Foi preciso repensar o plano de atividades do estágio.

MUDANÇA DE PARADIGMAS E AS ATIVIDADES DO GRUPO
Fazendo uso da bibliografia recomendada pela Profª Heloísa e discutindo com o grupo que estava tratando o tema da Linguagem, Letramento e Inter-transdiciplinaridade, notamos que uma das semelhanças entre alguns dos ambientes de estágio era a falta de opinião atribuída aos alunos pelo corpo pedagógico. Nos discursos de professores, por exemplo, pude notar que eles não acreditavam nas capacidades de desenvolvimento dos alunos, pelo contrário, alguns os encaravam como “casos perdidos” ou “completamente desinteressados”, em alguns casos eles os viam até mesmo como incapazes de fazer juízo sobre aquilo que realmente lhes importava.
Em geral, os professores culpavam o “trabalho cansativo” dos alunos, seus déficits de conteúdos de séries anteriores e falta de incentivo da sua família/comunidade pelo mau desempenho nos estudos. Mesmo admitindo que não se sentiam incentivados a realizar um trabalho de qualidade, a maior parte dos professores nunca associava o “fracasso escolar” dos alunos com a desmotivação imposta por aquele ambiente escolar insalubre.
A teorida de Vygótsky dá grande importância para o papel do desenvolvimento da liguagem e de toda forma de letramento no processo de interação e, ainda mais, de inserção social do indivíduo. O grupo, decidiu, portanto, propor, cada um em seu respectivo campo de estágio, algumas questões aos alunos, para que, através de seus discursos, fosse possível diagnosticar qualis os causadores do desinteresse/desmotivação deles próprios e quais suas aspirações acerca da escola.
Na semana em que me propus a realizar as entrevistas com os alunos, a falta de um professor e o desejo da Coordenação em adiantar aulas para acabar o período mais cedo, fizeram com que o horário fosse reordenado de modo que o mesmo professor ficaria responsável pelas duas turmas ao mesmo tempo. Tentando colaborar, acabei por assumir uma das turmas naquela noite e utilizei o espaço das aulas como atividade, tanto de Física como investigativa e de discussão das questões propostas no grupo do estágio.
Para minha surpresa, à questão “O que a escola significa para você?”, alguns alunos responderam muito positivamente utilizando sempre termos como “vida”, e “oportunidade”. Mesmo assim, não faltaram respostas como “nada” ou “gasto de tempo”. Houve um aluno do 2º ano do Ensino Médio que respondeu “Eu odeio a escola. Detesto escola desde que eu eu sou criança, não tem jeito de mudar, isso não é pra mim.”. A questão inversa “O que você acha que você significa para a escola?” causou mais polêmica. Alguns alunos responderam em falas mais pessimistas como “Só mais um número na lista de chamada” ou “Nada de mais, aqui tem muita gente pra alguém ligar pra mim.”.

CONCLUSÕES E O FINAL DO ESTÁGIO: INTERVENÇÃO
No geral, as respostas me permitiram concluir que os alunos viam uma possibilidade de desenvolvimento e inserção social (fosse através do mundo do trabalho ou simplesmente pela aquisição de algum tipo de conhecimento cultural diverso do seu) propiciada pela escola, entretanto, suas atitudes demonstravam claramente que eles sentiam que a escola não estava correspondendo à essa expectativa. Além disso, apesar de o aluno (indivíduo) enxergar na escola (instituição) parte importante de seu desenvolvimento, ele não conseguia perceber-se como parte constituinte dessa instituição.
Passando pelo semestre de estágio, minha própria visão sobre a escola se modificou. No curso noturno, com alguns alunos mais velhos, imaginei que a maturidade poderia estimular os professores, porém notei que o ensino noturno é subvalorizado e encarado não como forma de aquisição de letramento, mas tão somente um processo burocrático para aquisição de certificação. Mesmo com o pouco contato que tive com os professores e atividades das turmas do diurno, me pareceu que o valor dado a essas turmas é muito maior que aquele dado aos alunos do noturno. Descobri diversos resquícios de um período, pouco distante, que parece ter sido mais profícuo do que o atual. Uma mudança recente na Direção parece ter comprometido uma estrutura já antiga e funcional na escola, estabelecendo o caos que notei no começo do semestre.
Seja pela falta de comprometimento, seja pela desordem, alguns professores simplesmente não conseguem perceber que seus métodos precisam ser revistos e a questão da participação ativa dos alunos na escola revisitada. Os problemas atuais de gestão não devem deixar com que a escola como um todo seja prejudicada e para tanto o empenho individual dos professores é essencial.
O grupo que trabalhou a questão da Linguagem, Letramento e Inter-transdiciplinaridade, realizou intervenções semelhantes: trabalhos investigativos das demandas dos alunos na escola, algum tipo de proposta de modificação do sistema atual e, finalmente, aliar todo o estudo teórico, embasamento das discussões e propostas, para, de alguma forma, tentar orientar a escola em um novo rumo de atuação, mais condizente com uma proposta pedagógica facilitadora do processo de ensino-aprendizagem.
Principalmente devido às faltas de horários e disponibilidade do corpo docente, ainda não foi possível apresentar formalmente esses apontamentos a todos em meu campo de estágio, porém, os dados foram organizados e enviados virtualmente para a Coordenação de modo que pudessem ser repassados aos professores.

BIBLIOGRAFIA
BZUNECK, J. A. “As crenças de auto-eficácia dos professores.” In: SISTO, F. F., OLIVEIRA, G de C., FINI, L. D. T.: Leituras de Psicologia para formação de Professores. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, pp 117-134, 2000.
LABURÚ, C. E., BARROS, M. A., SILVA, O. H. M. da “Multimodos e múltiplas representações, aprendizagem significativa e subjetividade: Três referenciais conciliáveis da educação científica”. In: Ciência & Educação, v.17, n.2, p.469-487, 2011
TEIXEIRA, F. M., SOBRAL, A. C. M. B. “Como novos conhecimentos podem ser contruídos a partir dos conhecimentos prévios: um estudo de caso.”. In: Ciência & Educação, v.16, n.3, p.667-677, 2010
VYGOTSKY, L. S. “Pensamento e Linguagem”. 3.ed. São Paulo, Martins Fontes, 1991. 

2 comentários:

  1. Renata de Oliveira Antonio9 de dezembro de 2011 às 13:55

    Maximiliam,

    O que achei mais interessante no seu estágio foi o fato de que, em meio ao caótico contexto em que os alunos desta escola estavam inseridos,ainda havia interesse por algum conhecimento por ela oferecido(a aula de física). Além disso, a escola, mesmo que para poucos, ainda representa um meio de ascensão e inserção social.Isso tudo demonstra que, por mais que a escola esteja desacreditada, tenha muitos problemas e necessite urgentemente de reformas na sua estrutura, ela ainda pode e deve realizar grandes transformações em nossa cultura e sociedade.

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  2. Max, vc fez um belo texto, apesar da dura realidade que encontrou em seu estágio. Os depoimentos dos alunos são muito relevadores, de fato. Espero (e acredito)que a escola, de algum modo, atentará para a sua mensagem virtual!
    Procure, depois, no Ensino Aberto, comentários meus mais específicos sobre o seu relatório, ok?
    Heloísa

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