quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Relatorio Final El874 - Priscila Garcia Gomes, 063733

A escola

            O estágio foi realizado no período noturno, em uma escola de Ensino Médio. Nesse período há apenas duas salas de aula, uma de terceiro e outra de segundo ano. De uma forma geral as salas são bastante agitadas e barulhentas. Os alunos são em sua maioria trabalhadores e que, de certa forma, já chegam na sala de aula com o corpo ou a mente cansados, e por isso, o grande desafio do professor é chamar  e manter a atenção dos alunos.
            Os professores eram de estilos variados. Cada um trabalhava de uma forma e tinha sua maneira de avaliar. Mas, de uma forma geral, havia um certo desânimo em se dedicarem e se esforçarem para dar uma aula valiosa. As causas disso, claro, são muitas, e não é possível julgá-los sem antes fazer uma análise justa de inúmeros fatores que permeiam o que chamamos de “escola”.
Um fato bastante comum e que no início me assustou, foi que os professores e a diretoria pareciam ter um acordo de que as ultimas aulas de quinta e de sexta não precisavam ser dadas. Outro fato interessante, que acontece por que os professores faltam bastante, foi que algumas vezes o mesmo professor fica responsável por duas turmas no mesmo horário. Ele fica então, intercalando entre as duas salas, o que causa um certo tumulto.
Conversando com um dos professores, fiquei sabendo que a diretoria recentemente mudou e que a nova diretora não é uma pessoa muito rigida. Infelizmente, ela não é muito presente no período noturno e isso faz com que os alunos percam certos limites no que diz respeito à autoridade da coordenadora e dos professores.
Acompanhei professores de diferentes perfis, sendo que um deles se destacou muito por ser um excelente profissional. Suas estratégias em sala de aula me ensinaram muito e pude conhecer um professor que assumiu o seu papel de influenciar seus alunos de forma que eles cresçam e se tornem cidadãos.


O estudo - Motivação

Conforme o acompanhamento do estágio do semestre passado e a reflexão sobre a estrutura da escola atual no Brasil, percebi que o tema MOTIVAÇÃO muito me interessava e resolvi então explorar esse tema na escola. Buscar entender o que traz motivação e o que traz desmotivação para os alunos e para os professores, pois através disso, pode-se começar a pensar em como modificar positivamente a situação dessa e de outras escolas.
Para realizar esse estudo pensei em utilizar algumas ferramentas: acompanhar os alunos em diferentes tipos de aula e observar o que faz com que participem das aulas, realizar entrevistas com os alunos e conversar bastante com o professor mais motivado da escola.
No acompanhamento das aulas percebi que existiam três tipos de professores. O primeiro se tratava de um que apenas passava um texto na lousa e falava para os alunos copiarem porque aquele texto cairia na prova. Não explicava o texto e também não explicava qual a razão de estar estudando aquele conteúdo. Eu percebia que os alunos faziam muito barulho nessa aula e não escutavam nem os números da chamada gritados por ele. Percebi que não fazia sentido para eles aqueles textos e nem o motivo de estudar aquele conteúdo.
O segundo professor fazia o contrário, não passava nenhuma matéria na lousa, e ficava falando a aula inteira. Quando se tratava de algo para os alunos copiarem, ele ditava. Nessa aula os alunos ficavam muito quietos, pois qualquer barulho já era suficiente para o professor ficar muito bravo. De certa forma, o domínio que esse professor tinha da sala era muito bom, pois os alunos não faziam nenhum barulho. No entanto, como os alunos não podiam falar nada, não ficava claro o quanto estavam aprendendo.
O terceiro professor é o que me referi como excelente. Suas aulas eram muito equilibradas e seguiam um padrão. No início da aula sempre passava o conteúdo na lousa. Esperava que os alunos copiassem e logo que acabavam, começava a explicar aquilo que estava escrito. A sua explicação era muito boa e dinâmica. Ele explicava de forma contextualizada, fazia os alunos rirem, fazia muitas perguntas e a explicação era basicamente uma conversa entre ele e a sala. Eu percebia que os alunos gostavam muito. Eles participavam, respondiam as perguntas e se interessavam pelo assunto.
Esse terceiro professor também usava a estratégia de sempre levar para a sala de aula um objeto curioso, relacionado com o assunto abordado. Ele usava esse objeto para chamar a atenção dos alunos e com ele explicava o assunto, conforme a matéria.
Em algumas aulas desse último professor os alunos faziam muito barulho. Eu presenciei alguns momentos assim. Algumas vezes ele simplesmente parou a explicação, ficou olhando para a sala e a sala silenciou-se. Uma outra vez ele parou e falou para a sala: “Eu estou aqui trabalhando e vocês estão brincando com o meu trabalho, quando você estão trabalhando, alguém fica brincando?” e assim a sala ficou quieta.
Em uma de suas aulas havia um aluno sentado em uma cadeira, sem carteira, que não estava copiando a materia que o professor passava na lousa. Ele ficava apenas conversando com as pessoas que estavam ao seu redor, e não fazia nada. Depois de terminar de passar a materia na lousa, o professor passou a andar pela sala. Quando viu a postura desse aluno, parou para conversar com ele. Perguntou porque ele não estava copiando e o aluno argumentou que faltava na escola a um mês e que então tudo já estava perdido. O professor, carinhosamente, começou a aconselhar o aluno, dizendo a ele que deveria pensar em progredir, em crescer. O aluno pegou seu caderno na mochila e passou a copiar. Comecei a percceber com essa atitude que o professor estabelecia uma relação com seus alunos e que se importava com eles, e com certeza, os alunos sentiam-se mais valorizados.


As entrevistas

Elaborei uma entrevista e chamei alguns alunos para responderem. Os participantes trabalhavam durante o dia e um deles fazia curso técnico.
Percebi que algumas respostas foram muito enfáticas e podiam me mostrar algo. Quando perguntei “Por que você estuda (o que te faz vir e estar na escola)?”, todos os alunos responderam que queriam ser alguém na vida, que os estudos fariam conseguir um emprego melhor. Essa resposta me mostrou duas coisas: primeiro: em algum lugar esse alunos querem chegar e segundo: de alguma forma a escola é importante na caminhada para se chegar a esse lugar. Esses alunos são pessoas já independentes, que trabalham, que querem ajudar sua familia, que querem melhorar de vida.
Um dos alunos falou que vai à escola porque quer saber dialogar melhor com as pessoas, e que na escola ela tem contato com outras pessoas, alunos e professores, e que isso irá ajuda-la. Então, na perspectiva desses alunos, a escola tem o seu papel.
Outra questão perguntava o que, na escola, os motivava. Todos responderam que não havia nada na escola que os motivava, ou seja, eles sabem da necessidade de frequentar a escola, eles continuam lá, mas nao existe nada na própria escola que os faça querer ir. Perguntei mais detalhes sobre essa questão e eles falaram que desanimam porque as aulas sao ruins, porque a escola é desorganizada, porque os professores vão embora nas ultimas aulas.
Nesse momento algumas coisas começaram a ficar um pouco claras. Até então, eu nao tinha muita certeza se os alunos percebiam a falta de respeito que certas atitudes, como cancelar uma aula só porque se trata de quinta ou sexta a noite, se tratava de uma falta de respeito com eles. Mas com essas perguntas, comecei a entender que eles percebem sim, e que isso é bastante sério.
            Perguntei como eram as aulas que motivavam e como eram as que desmotivavam e ouvi as seguintes falas: o professor motiva quando trata bem os alunos, quando escuta suas as duvidas, quando dialoga com a sala, quando é atencioso quando os alunos vão até sua mesa, quando o professor se importa com eles e dá conselhos, quando o professor os deixa a vontade na sala. E o que eles mais odeiam: quando na explicação o professor só fica falando e não deixa os alunos expressarem se estão entendendo ou não, quando só passa a matéria na lousa e pede para copiar, quando a aula é ruim e quando eles são chatos.
            Por outro lado, os alunos não gostam quandos os professores apenas passam a matéria na lousa ou quando apenas explicam. Eles me falaram que alguns professores não deixam que eles participem das aulas, que façam perguntas e que isso é horrível. Eles não gostam quando não podem se expressar.
            Comecei a entender a importancia da relação entre o professor e o aluno. Quando fiz a pergunta “Para você o que é um bom professor?”, obtive respostas como: “Tratar bem o aluno e dar uma boa aula.”, “Seria aquele que ensina e que vê realmente se o aluno está interessado e se ele ver que não está interessado tentar te motivar, que presat atenção nos seus alunos e vê se eles estão aprendendo ou não.”, “Professor que nos faça sentir a vontade.”
Em um dos textos relacionados à Vigotsky, encontrei a seguinte afirmação:  “É desejável que o professor  promova na sala de aula um ambiente afável, transmitindo ao aluno um sentimento de pertença, onde se sinta integrado e veja legitimadas as suas dúvidas e os seus pedidos de ajuda.” Quando li esse trecho percebi o quanto ele trata uma realidade presente dentro daquelas salas de aula. Quando o professor permitia que o aprendizagem acontecesse nesse meio de confiança, de uma relação estabelecida, tudo parecia fluir.
            E o contrário também se confirmou claramente. Quando o professor não estabelece uma relação, quando explica da forma que escolheu e não da forma que é boa para os alunos, quando não existe de fato uma integração entre o professor e seus alunos, a aprendizagem parece ficar bloqueada. A relação entre o professor e o aluno parece ser um canal por onde a aprendizagem pode fluir.


A intervenção

            Peguei os dados conseguidos nas entrevistas e também minha reflexões e levei para apresentar na reunião semanal com todos os professores. Infelizmente, do período noturno havia apenas dois professores, mas mesmo assim pude discutir alguns temas.
            Contei aos professores os objetivos do meu estudo e contei as respostas dos alunos. De início os professores foram bastante resistentes com relação à dedicação dos alunos. Eles afirmaram que os alunos não querem aprender, que não se importam com os estudos. Tentei mostrar a eles o que fazia com que os alunos tivessem vontade de aprender e o que trazia desmotivação, e qual a responsabilidade do professor em conquistar os alunos e promover motivação.
Tentei mostrar aos professores os padrões que seguiam acontecendo nessa escola: quando um professor acredita nos seus alunos, mostra que sua aula é valiosa e mostra que deseja que os alunos aprendam, eles respeitam e fazem as tarefas. Mas quando um professor faz as coisas de qualquer jeito, os alunos só conversam e não param para prestar atenção. Um dos professores comentou que quando o professor está motivado ele consegue motivar seus alunos, mas quando está desmotivado, a sala se torna desmotivada.
Mas não é apenas a qualidade da aula que os alunos mostraram como critério para quererem aprender. Com a análise de suas atitudes dentro da sala de aula e a análise de suas respostas, fui percebendo que o professor deve se envolver com a sala, deve se abrir para as necessidades da sala. Em um dos textos o autor fala que “o processo de aprendizagem não é visto como a substituição das velhas concepções, que o indivíduo já possui antes do processo de ensino, pelos novos conceitos científicos, mas como a negociação de novos significados num espaço comunicativo no qual há o encontro entre diferentes perspectivas culturais, num processo de crescimento mútuo. As interações discursivas são consideradas como constituintes do processo de construção de significados.”
A aprendizagem não é apenas uma transmissão de conhecimento, que acontece se o professor souber o conteúdo e apenas transferi-lo para seus alunos. A aprendizagem é construída em conjunto, na relação do professor com os alunos e na relação entre os alunos. Se o professor não conversa com a sala, não ouve o que seus alunos têm a dizer, ele não faz uma ligação com a sala, mas apenas fala aquilo que acha que deve falar, como se o conhecimento fosse simplesmente transferido.
Em outro texto: “Entendia que a aprendizagem não era uma mera aquisição de informações, não acontecia a partir de uma simples associação de idéias armazenadas na memória, mas era um processo interno, ativo e interpessoal.” A aprendizagem é algo incrível e difícil de descrever. Mas com certeza não é algo que acontece no indivíduo isoladamente. A escola, a sociedade, os professores, os colegas de sala, os colegas de trabalho, etc, participam da aprendizagem indiretamente.
Após a reunião, o “professor excelente” continuou conversando comigo sobre o assunto da reunião, porque disse que gostou dos pontos que levantei. Ele me falou que a discussão que eu trouxe deveria acontecer sempre naqueles horários, mas muitas vezes a reunião é usada apenas para fazer acertos de notas.
Conversamos muito sobre a escola e sobre o seu papel. A reflexão que fizemos sobre a sociedade e sobre a escola foi muito intensa. Falamos sobre a queda na autoridade da escola como fonte do conhecimento, falamos sobre os comportamento dos pais, que cobram nota dos professores e não dos seus filhos, falamos sobre o modelo da escola de hoje, entre outras coisas.
Vygotsky, segundo Freitas (2000), concebe o homem como um ser histórico e produto de um conjunto de relações sociais. (...) O autor considera que a consciência é engendrada no social, a partir das relações que os homens estabelecem entre si, por meio de uma atividade sígnica, portanto, pela mediação da linguagem. Os signos são os instrumentos que, agindo internamente no homem, provocam-lhe transformações internas, que o fazem passar de ser biológico a ser sócio-histórico. Não existem signos internos, na consciência, que não tenham sido engendrados na trama ideológica semiótica da sociedade.
Com nossa conversa, fui percebendo que analisar a escola e o comportamento dos alunos não é uma tarefa fácil. Os alunos não são seres isolados, que vão aprender se tiverem inteligência ou desenvolvimento necessário. Eles estão imersos na sociedade e por isso são influenciados por ela, bem como, por outro lado, podem influencia-la.
Esse professor me falou algo que me marcou muito. Ele me disse que o vínculo do professor na escola é algo muito importante e que determina outros fatores. Ele disse que um professor novo entra e sai da escola e não se envolve muito, e os alunos também não sabem exatamente quem ele é. Mas quando o professor fica por um bom tempo na escola, quando é conhecido por todos e conhece todos, tudo muda. Ele falou que essa relação do professor com a escola e com os alunos faz com que se importe mais, que se envolva mais com suas responsabilidades.
Isso mostra que é necessário que o professor se envolva com a história de cada aluno, que se envolva de verdade com a escola, pois assim ele se vê responsável por tudo que acontece. E assim, ele estabelece uma relação com a escola, uma relação com os alunos e através dessa relação a aprendizagem se torna possível.





Bibliografia

         Motivação para aprendizagem escolar: possibilidade de medida, de Luciana Gurgel Guida Siqueira e Solange M. Wechsler, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
         Motivação e aprendizagem em contexto escolar, de Filomena Ribeiro, da Escola Secundária de São Lourenço
         Atividade discursiva nas salas de sula de ciências: uma ferramenta sociocultural para analisar e planejar o ensino, de Eduardo F Mortimer, da Faculdade de Educação - Universidade Federal de Minas Gerais
         Desenvolvimento Moral: Considerações Teóricas a Partir de uma Abordagem Sociocultural Construtivista, Lincoln Coimbra Martins, Universidade Federal de Minas Gerais
         Vygotsky e as teorias da aprendizagem, Rita de Araujo Neves, Mestrado em Educação PPGE-FaE


4 comentários:

  1. Mara Ferreira Alves (082086)8 de dezembro de 2011 às 20:56

    Gostei muito dessa proposta de motivação. No meu estágio, acabei sentindo que o processo de ensino/aprendizagem estava muito ligada à motivação, mas porque os alunos pareciam não se interessar. Não queriam estudar, não se envolviam nas aulas... parecia que não acreditavam em educação. Ao contrário dos alunos que você acompanhou, que não gostavam de professores que só passavam matéria, os alunos que acompanhei pareciam se sentir mais confortáveis quando tinha matéria na lousa. Se não tivesse nada, eles não anotavam nada. Se o professor colocasse um rabisco, eles anotariam um rabisco. Me interessei muito pelo tema de motivação...

    Mara Ferreira Alves
    (082086)

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  2. Rafael Takahashi (082584)8 de dezembro de 2011 às 22:49

    Achei muito interessante a maneira como você fez as entrevistas e por ter ouvido e conversado com os professores, e insistido em passar o que você vê acontecendo dentro da escola. Mesmo eles estando um pouco fechados a aceitarem certos tipos de sugestões, principalmente por vir de uma estagiária e por eles estarem engessados nesse mesmo método há anos.

    É importante os alunos terem noção de que precisam da escola, apesar desta não cumprir de forma muito eficiente, em muitos casos, com sua função social, devido a inúmeros motivos.
    Mas também acho pouco eles acharem que a escola só é útil para a vida profissional mas também para a cidadania.
    Mas os alunos já estão em uma direção certa e muito disso se deve ao fato de eles já estarem lidando com uma vida profissional ao mesmo tempo que estudo.


    Rafael Takahashi(082584)

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  3. Excelente o seu trabalho, Priscila! Conseguiu articular as vozes dos alunos, dos professores, da teoria, num movimento que, provavelmente, alterará alguma coisa naquela escola. Seu texto está muito claro e seu estilo nos leva quase a experimentar, com vc, o que foi vivido lá.
    Heloísa

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