quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Relatório Final - Luiz Henrique Lessa

A Escola


O estágio foi realizado na escola EE xxxx, escola localizada no xxxx, periferia de Campinas. A escola conta com um quadro reduzido de professores e funcionários, pois ela geralmente se torna a última opção de trabalho por estar localizada num local distante do centro da cidade. Ela atende toda a comunidade do Jardim Fernanda, segundo a diretora, que me informara que  a totalidade de seus alunos lá reside e possui séries da 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. O prédio estava em reforma, com mais salas sendo construídas e ampliadas. Realizei as atividades de estágio no período da noite e apenas um dia estive lá durante a tarde, ocasião na qual acompanhei uma aula de Geografia na 7ª série. Em todas as aulas de Geografia que acompanhei, o professor trabalhou exclusivamente com os conteúdos da apostila da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, nas sétimas com temas de demografias e nas 2ªs e 3ªs séries do Ensino Médio, o conteúdo foi Geopolítica, mais especificamente o mundo pós anos-90: globalização e mercado mundial.
Inicialmente, pretendia trabalhar a visão dos alunos a respeito do mercado de trabalho, no entanto, a pesquisa acabou se direcionando para outro tema, que foi a discussão acerca da situação atual da educação brasileira. Um roteiro de entrevistas foi aplicado aos alunos com o intuito de promover a reflexão sobre a relação aluno/escola/mercado, bem como identificar os problemas existentes na escola para uma possível intervenção. Segue abaixo o roteiro de perguntas aplicado por mim e também duas respostas, transcritas como as obtive por escrito dos alunos:
1)    O que é a escola para você?
2)    O que a escola representa para seu futuro?
3)    Em que sentido a escola contribui para sua vida?
4)    Quais os principais problemas existentes na sua escola?
5)    O que você pode fazer para resolver esses problemas?

EE xxxxx

1)    A escola é um lugar onde podemos aprender coisas, um lugar para ser respeitado e respeitar a todos, aprender sobre o que podemos ser futuramente.
2)    A escola representa um lugar que será muito bom para nosso futuro, pois se não tivermos estudo, não teremos um bom emprego futuramente.
3)    A escola vai ajudar no nosso desempenho do futuro, para arrumar um bom emprego.
4)    Higiene geral, ventiladores nas salas, falta de reposições de aula, não ter substituto para os professores.
5)    Conversar com os diretores da escola.

A., D., K.e M. – Alunas do 2º B Noturno

“Bom a escola para mim é o futuro, sei que pode parecer estranho mais atravez (sic) da escola que nos conhecemos melhor, por exemplo já passei altos e baixos nesta escola, mas agora eu vi que isso me ajudou muito, mas esta é outra historia rs.
No caso a escola representa para mim um lugar de novos aprendizes (sic), é sério.
Como disse a escola e o futuro quando saímos dela já pelomenos (sic) imaginamos o que queremos ser. Ex: falo muito, muito, já me disseram que poderia cursar jornalismo é no momento é o que eu pretendo cursar. Resumo ela (a escola) contribui e muito não só no nosso futuro, mas na nossa vida.
Não me expresso muito bem atravez da literatura mas acho que você entendeu, bom espero kk *_*”

L.– 7ªB Tarde

A escola é um lugar horrível, eu não gosto de vir aqui porque sempre sou zuado. Prefiro ficar em casa aprendendo mas meus pais não tem dinheiro para pagar um professor particular. Quando eu venho quase sempre rola alguma merda, mas isso não importa - só sei que essa escola não tem um ambiente bom para aprender porque eu só vejo gente burra entrar aqui e sair burra do mesmo jeito. Até hoje não vi ninguem sair daqui rico. Ainda não sei o que a escola representa pra mim, to pra descobrir. A escola não contribui em nada para o meu futuro sei que deveria estar aqui para aprender mas isso é só teoria. Aprendi a fazer contas e escrever, o resto eu aprendi fora da escola. Os principais problemas existente na escola é tráfico de drogas, falta de professor, prédio zoado, não tem nada de bom nessa escola, as vezes a merenda, mas só. Eu não posso fazer nada para resolver os problemas.

B.– 1º B Diurno

Assim, através das entrevistas, pude constatar que seria muito mais oportuno discutir a situação da Educação Pública, visto que muitos dos alunos têm a opinião de que a situação da escola se resume a falta de professores, prédios precários e falta de higiene. No intervalo entre uma aula e outra, pude conversar melhor com os alunos e falar da greve dos estudantes da Unicamp, da polícia na Usp e a crise existente na universidade pública. Tentei lhes mostrar que os problemas existentes na escola não são isolados e exclusivos de sua escola. As aulas péssimas, a falta de professores, a desmotivação e a falta de preparo dos professores se devem a falta de financiamento da educação pública, ao trabalho pouco valorizado dos professores de escolas públicas e ao baixo preparo e incentivo à formação dos docentes. Todos esses problemas podem ser encontrados em diferentes níveis na universidade. Ao introduzir esse debate, tive a intenção de despertar o senso crítico dos alunos, cuja opinião é marcada pelo senso-comum, difundida pelos meios de comunicação. Este é um dos objetivos do ensino de sociologia no Ensino Médio, cuja apostila afirma que o objetivo do professor de sociologia não deve se focar na apreensão dos conceitos, mas sim no despertar de uma consciência crítica entre os estudantes.
Como a finalidade do estágio é propor alguma forma de intervenção na escola, pensei em consultar os estudantes sobre o que achavam de realizar o plebiscito que está sendo realizado pelo movimento estudantil da Unicamp, que é uma consulta ampla e democrática aos estudantes, exigindo do governo federal 10% de investimento do PIB brasileiro em educação, ocasião oportuna para se debater a aprovação do novo PNE 2011. O professor de geografia responsável pelo meu estágio se interessou muito pelo tema e se propôs a debater o tema na sala de aula. Os alunos compreenderam minha intenção, então conversei com um dos estudantes da Unicamp e levamos uma urna à escola no dia 24 de Novembro para colher votos dos estudantes. Acredito que esta foi uma boa forma de intervenção, visto que as tentativas feitas por mim de exigir um retorno por parte dos alunos da escola não foi bem sucedida, tais como as postagens no blog, dado que não houve comprometimento. Acredito que, ao menos, o debate sobre a exigência de 10% do PIB para a educação foi um debate que mobilizou alguns alunos da escola, sendo que este tema se tornou assunto entre os professores e estudantes, ainda que restrito aos professores de geografia e história. Um aluno inclusive se propôs a ficar na urna durante a noite, mas a direção não permitiu, então tivemos que ir embora ao fim da tarde.

Discussão teórica

O projeto de uma abordagem interdisciplinar compõe o quadro de qualquer abordagem sociológica que se pretende crítica. A crítica não pode se satisfazer com um conhecimento que seja unilateral, ela deve perpassar as mais diversas áreas do conhecimento humano. O próprio caráter do conhecimento social é unitário porque os homens, ao produzirem sua existência através de inúmeras práticas sociais, engendram dimensões distintas, sejam elas biológicas, estéticas, culturais etc. Para Vygotsky, o bom professor é aquele que atua como mediador, interferindo na zona de desenvolvimento proximal da criança, a fim de despertar processos internos de desenvolvimento. Para mim, a tarefa fundamental do professor de sociologia é abordar o conhecimento enquanto uma unidade que possui dimensões sociais, não importa de qual área ele seja oriundo, visto que estes conhecimentos compõem uma totalidade que se cinde no senso-comum. O professor de sociologia, portanto, deve mostrar a aparência dessa cisão e facilitar o desenvolvimento do pensamento crítico entre os estudantes, uma vez que caráter isolado do conhecimento positivista predomina de maneira acentuada na escola.



Bibliografia:

FRIGOTTO, Gaudêncio: A interdisciplinaridade como necessidade e como problema nas ciências sociais. Revista do Centro de Educação e Letras da UNOESTE, v. 10, nº1, p.41-62, 2008.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. 1998, p. 112

2 comentários:

  1. Bruna La Serra (059276)6 de dezembro de 2011 às 23:44

    Lessa,

    como sua colega de área, concordo plenamente com a idéia de que "uma abordagem interdisciplinar compõe o quadro de qualquer abordagem sociológica que se pretende crítica".
    Quanto às entrevistas é bem interessante notar o contraste dos dois discursos que você selecionou. Um deles, o posistivo, me soa decorado e com pouca capacidade crítica, enquanto o negativo me parece muito mais honesto, revelando uma maior capacidade de observar a realidade. Que pena que o que nos parece mais verdadeiro e correto é o negativo, né???

    bjs,

    Bruna

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  2. Luiz, achei a ideia do plebiscito bem bacana. Imagino que os alunos tenham, de algum modo, articulado a realidade que vivem com o contexto mais amplo e isso não passou desapercebido pelos envolvidos no processo educativo.
    Farei comentários mais específicos sobre seu relatório no Ensino Aberto, ok?
    Veja lá depois...
    Heloísa

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