Relatório de Atividades
Local do estágio: xxxxx- Vinhedo
Período: 1° de setembro a 20 de novembro de 2011.
Supervisores responsáveis: Professor xxxx e professora xxxx
O estágio consiste em uma continuidade das atividades de observações de aulas de História do Estágio Supervisionado I, feitas durante o primeiro semestre de 2011. Para o Estágio II, é pedido que haja intervenção efetiva, que propus que fossem na forma extracurricular com os alunos do Ensino Médio que quisessem participar. Seriam oficinas temáticas com assuntos abordados pelo vestibular, mas trabalhados de uma forma diferente e que estabeleça um diálogo com outras disciplinas, visando uma interdisciplinaridade. Com essa atividade, a proposta era a de pensar a relação ensino/aprendizagem (tendo como base Vygostky) e formas de envolver o aluno na aula, fazendo com que ele fosse parte ativa do seu próprio aprendizado.
A Escola
O xxxx é um dos grandes colégios em Vinhedo, atuando desde 1988, e que nos últimos anos tem se dedicado a instalar programas didáticos americanos na escola. No Projeto Político-Pedagógico, Vygotsky aparece como um dos autores bases para a estrutura da escola. A proposta da escola é que o professor sempre induza o aluno ao raciocínio próprio (“mentes inovadoras”), ao invés de apenas apresentar o conteúdo oferecido pelo material didático. A aula, portanto, conta com a participação ativa dos alunos. Essa participação acontece com as atividades que o aluno fica encarregado: fazer os exercícios que os professores propõem, leituras básicas, e estudo regular dos assuntos que está sendo apresentado nas aulas. Mais especificamente nas aulas de História, o professor sempre pedia leitura prévia com resumo dos capítulos que seriam trabalhados na aula, para que ele pudesse expor o tema de uma maneira diferente da que está na apostila, e para que o aluno já viesse com as dúvidas que teve sobre o capítulo, para serem esclarecidas na aula. E, ao fim de cada capítulo, os exercícios também deveriam ser feitos.
Cada sala tem uma pasta em que é feita diariamente a chamada e onde é anotado o quadro de conduta do aluno: falta de tarefa, mau comportamento, linguajar inapropriado e outras observações do professor. Há também pendurado em cada sala um roteiro de estudos (disponível também online para o aluno no site da escola) que mostra o objetivo das aulas daquela semana. Esse roteiro de estudos é feito pelos professores e deve ser entregue duas semanas antes da aula acontecer.
Debate teórico
Durante as aulas de Estágio Supervisionado II, uma das principais discussões foi sobre os modelos de escola, baseada na leitura do texto de Jairo Werner, Saúde & educação: desenvolvimento e aprendizagem do aluno. O que concluímos foi que embora muitas escolas tenham nos seus projetos um modelo histórico-cultural, na prática o que acontece sempre é o modelo mecanicista: o aluno é encarado como um ser passivo, em que o desenvolvimento é igual a aprendizagem, e que a relação professor- aluno se caracteriza como autoritária. Como mudar isso? Que proposta, dentro de cada área, poderíamos levar às escolas? Como levar nossa contribuição, como estagiários?
Acompanhando as aulas de História do Ensino Médio, fiquei muito surpresa ao ver havia a proposta e iniciativas de tornar o aluno um ser ativo da sua própria educação, mas o que faltava, era interesse dos alunos. A impressão que dava é que eles não queriam ser responsáveis pela sua educação. Não faziam as tarefas e não participavam das aulas, mesmo com o esforço do professor de tentar incluí-los.
Uma das atividades que o professor desenvolveu com os alunos foi a apresentação de seminários. Cada grupo se dividia e apresentava um capítulo da apostila. O professor dava as orientações básicas para uma boa apresentação. O combinado é que todos os alunos iriam com o resumo do capítulo feito, o que daria liberdade para o grupo de pesquisar mais sobre cada assunto. Depois de cada apresentação, o professor abria à sala para comentários e críticas: o que foi bom, o que poderia ter sido diferente, como os alunos apresentaram, se foi confuso, se fazia sentido com o que estava na apostila etc, e o professor fechava com os seus comentários e sugestões para os grupos que ainda iam se apresentar. Gostei muito da iniciativa, mas a participação dos alunos não foi boa. Muitos grupos utilizaram apenas a própria apostila e no máximo a internet para montar um trabalho básico. Poucos foram os que usaram a biblioteca da escola (que oferece muitos livros e apostilados) para trabalhar.
Outro problema foi o modo com que trabalharam com as fontes: a internet, por exemplo. No Ensino Médio eles já sabem podem usar e abusar da internet, com o cuidado de sempre questionar o que é apresentado. Eles sabem porque a escola sempre reforça isso, mas não o fazem. Uma aluna do 2° ano, ao apresentar um seminário sobre descolonização asiática, colocou um mapa da África para ilustrar a Ásia. Ela se defendeu dizendo que havia utilizado um site que só falava sobre Ásia, e que esse mapa estava lá.
Um caso que me chamou a atenção foi a Escola da Ponte, em Portugal, que Rubem Alves descreve em seu livro A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Nessa escola, há uma participação ativa não só dos alunos, mas também dos pais. Os pais se envolvem no processo educacional do filho, através das assembleias semanais que a escola realiza. É muito diferente do que acontece no Brasil: os pais e os próprios alunos jogam toda a responsabilidade da educação nas mãos dos professores e da escola.
O 2° ano do colégio xxxx é uma turma grande que durante todo o ano apresentou problemas de disciplina com a maioria dos professores, e dificuldades em muitas matérias (com vários alunos de recuperação). O coordenador fez uma assembleia em que participaram os pais, os alunos, os professores e a coordenação. Nela, buscaram apontar todas as problemáticas de ambos os lados: o que os alunos poderiam fazer para melhorar nos estudos, e o que os professores poderiam melhorar. Ao final, fizeram um acordo, em que os alunos se comprometiam a melhorar a postura dentro da sala de aula e se dedicar mais aos estudos. Depois de um tempo, o coordenador foi à sala do 2° ano, no período da aula de História, discutir sobre esse acordo. O que os alunos tinham apontado acerca dos professores estava sendo melhorado, mas os alunos não estavam cumprindo a parte deles do acordo. A maioria ainda não fazia tarefas, e apesar do comportamento ter melhorado, ainda era um problema. O coordenador pediu satisfação, porque somente uma parte do acordo estava acontecendo. Muitos alunos se manifestaram sobre isso, mas o que mais me impressionou foi o de uma menina que disse que ela podia responder apenas pelos próprios atos, e não pelo dos outros. Se um outro aluno não estava cumprindo o acordo, ela não tinha relação nenhuma com isso. O máximo que ela pode fazer é exercer a parte dela. E essa opinião foi de uma grande parte dos alunos. Os alunos não se enxergam como um coletivo.
Atividades realizadas
A proposta inicial era a de oferecer oficinas temáticas em História, a partir dos conteúdos trabalhados para o vestibular, com uma abordagem diferente. Depois de algumas aulas que pude observar, os temas que separei foram: “Revolução: a violência é o único meio de mudanças?”; “Descolonização da África: questões de identidade e alteridade”; “História no cinema: A Guerra de Secessão”; “Analisando documento: a Revolução Francesa”; “A arte como propaganda política no nazismo”. Apresentei o projeto para o professor e o coordenador, que se interessaram bastante. Mas, por conta de ser final de ano, o coordenador achou melhor que esse projeto ficasse logo para o começo do próximo ano, que ele poderia dar mais atenção, divulgar na escola e talvez abrir para os pais assistirem também.
Sendo assim, minha intervenção acabou acontecendo no horário normal de aula, para o 1° ano, sobre colonização inglesa e francesa. Parti do pressuposto de que os alunos tem o material (que é muito bom) sempre à disposição, e preparei uma aula com uma abordagem diferente, utilizando das aulas que tive sobre isso na faculdade. Como essa colonização inglesa aparece no imaginário americano? Com essa pergunta como principal questão, levei quadros para analisar na aula e apresentar alguns conceitos, como o dos pais peregrinos, o Mayflower, como os indígenas aparecem nesse imaginário, entre outros.
Conclusão
Pensando no modelo histórico-cultural de Vygostky, todas as aulas de História tem potencial para serem diferentes. Só que mais do que vontade e disposição do professor, é preciso que os alunos entendam sua parte dentro da sua educação. Esse foi o ponto que me pareceu mais importante: fazer com que os alunos se responsabilizem pela sua educação. O aluno é autônomo, e ele tem que se enxergar desse modo.
Na última semana de aula, o coordenador entrou na sala para explicar sobre as recuperações finais. Durante todo o ano, para os alunos que ficaram de recuperação, há sempre alguns plantões de dúvidas e aulas extras para depois o aluno realizar a prova. Para a recuperação final, não há aulas, o aluno estuda por conta própria. O coordenador convidou os alunos a conhecerem o regulamento da escola, porque é um contrato. A preocupação que ele tinha é que de novo aparece o discurso de aluno que reprova de ano porque o professor não o passou de ano. O que o coordenador reforçou foi que o aconteceu foi o que o aluno fez, é o aluno que faz a sua história, que faz seu trajeto. Ele é responsável por sua reprova, e não o professor que não deu décimos de nota para que o aluno passasse. Achei muito interessante o discurso, porque abre o contrato da escola para os alunos conhecerem (e geralmente quem conhece, se conhece, são os pais), e que colocou os alunos como seres ativos dentro da sua própria educação. Esse é o ponto principal em que me concentrei durante esse semestre, e que pretendo levar para o ofício de professora.
Bibliografia
ALVES, Rubem. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Campinas: Papirus, 2001.
VYGOSTKY, L.S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
WERNER, Jairo. Saúde & educação: desenvolvimento e aprendizagem do aluno; Rio de Janeiro: Gryphus, 2005.
Mara, gostei muito do seu texto,também pela articulação explícita que faz com a teoria e os autores com quem dialogou. Ficou bem claro!
ResponderExcluirRetirei o nome da escola, no entanto, ok?
Comentários mais específicos, vc encontrará no Ensino Aberto.
Heloísa