A escola
As atividades deste estágio foram realizadas nas aulas de música das turmas de 2°, 4° e 5° ano em um colégio no centro de Campinas em parceria com a minha colega Adriana Barreto, também da música. A escola é grande e tem muitos alunos.
As aulas de música acontecem em uma sala própria, repleta de materiais e instrumentos musicais, estrutura essa que é um tanto quanto incomum nas aula de música. Por ser uma escola grande, tivemos contato basicamente com as crianças e a professora de música. Esta nos recebeu muito bem, sempre disposta a ouvir nossos comentários e dúvidas, explicar suas atividades e conteúdos bem como a nos aconselhar em nossas atividades. Não tivemos problemas de aceitação e adaptação das crianças em relação a nós. Elas estão bem acostumadas a receber estagiários.
Com duração de 50 minutos, as aulas são compostas por atividades bastante variadas, que abarcam diversas formas de estímulos e conteúdos, dentre eles apreciação, teoria musical, percepção, execução de instrumentos, criação, composição e ritmo. Os mesmos eram trabalhados de formas diferentes, de acordo com cada faixa etária.
A professora procurava partir da realidade das crianças e assim fazer uma ponte com os conteúdos que ela queria desenvolver. Por exemplo: as crianças tocavam na flauta a música “I gotta feeling” do grupo The Black Eyed Peas e também um trecho da Nona Sinfonia de Beethoven.
Atividades Desenvolvidas
Começamos nossas atividades no final de setembro. Até nos adaptarmos às turmas, observar e compreender o ritmo das aulas de música já estávamos no final de outubro, início de novembro, época em que as turmas estão se preparando para a festa de final de ano. Assim, não pudemos intervir muito no trabalho da professora. Dessa forma, realizamos duas atividades apenas com o 2° ano.
A primeira atividade envolvia quatro partes:
- Brincadeira da Estátua com instrumentos: enquanto a música toca, todos devem “dançar” tocando um dos instrumentos que estiverem ouvindo. Quando a música para, todos param tocando este instrumento. A música era “Boas festas”, de Assis Valente em arranjo com a cantora Simone e o grupo Timbalada.
- Ouvir e cantar a letra: depois de terem se familiarizado com a letra e a música na brincadeira anterior, as crianças deverão agora realmente “parar para ouvir” comentando os instrumentos que fazem parte do arranjo e aprender a letra da música.
- Execução de instrumentos: uma parte da turma deveria executar determinada célula rítmica com o tambor e a outra parte, uma célula diferente nos sinos criando um acompanhamento para a música. Um terceiro grupo formaria o coro. Eu ou a Adriana iríamos reger as crianças.
- Trocando de regentes: as crianças iriam, agora, reger.
Os conteúdos musicais trabalhados foram: apreciação, discriminação de instrumentos, postura e movimento dos instrumentistas na execução de seu instrumento, a figura do regente e seus gestos expressando códigos musicais, acompanhamento rítmico, atenção e concentração, o tocar em grupo.
A professora nos deu total liberdade para trabalharmos da forma como quiséssemos, pedindo apenas que levássemos uma música de natal para não fugir ao tema e sequência das aulas. Para preparar as atividades não perguntamos o que havia sido trabalhado ou não para aproveitar o retorno que as crianças fossem oferecendo durante a própria atividade e pudéssemos analisar a bagagem que elas traziam.
Nosso objetivo com essa atividade era analisar brevemente a bagagem musical das crianças, seu desempenho e o processo de envolvimento com nosso trabalho de forma a pesquisar alguns aspectos da motivação envolvidos.
A segunda atividade foi uma entrevista coletiva com a sala realizada na semana seguinte à realização da primeira. Fizemos apenas três perguntas para a sala.
Na entrevista, foram feitas as seguintes perguntas:
1)Qual atividade vocês mais gostaram? Porquê?
A maioria respondeu: ser o regente e brincar de estátua porque é uma brincadeira muito legal e engraçada.
2)O que vocês aprenderam nessas atividades?
Respostas: escutar música, uma nova forma de brincar de estátua, a tocar uma música mesmo sem os instrumentos de verdade, a ser maestro, a tocar no ritmo, a prestar atenção nos instrumentos da música.
3)O que vocês fariam de diferente?
Respostas: brincar de estátua com os instrumentos que não estávamos ouvindo, quando a música parasse, poderíamos tocar instrumentos de verdade,ao parar a música só poderíamos mexer a parte no corpo usada par tocar aquele instrumentos, quando a música parasse poderímos imitar um instrumentos da mesma família (cordas, percussão por exemplo), tocar instrumentos que começassem com a mesma letra de algumas palavras da música.
A entrevista serviu para analisarmos a bagagem musical que traziam, em que pontos poderímos ter exigido mais ou menos, o que as crianças puderam absorver conscientemente (o que elas lembravam) e o que mais as atraiu.
Após a realização das atividades chegamos às seguintes conclusões: as crianças se envolveram, participando em todos os momentos. Conseguiram fazer tudo o que havíamos proposto. Encontraram alguma dificuldade apenas na hora da brincadeira do regente. Isso se deveu ao fato da forma como a professora já havia trabalhado este conteúdo com elas, que envolvia apenas os gestos de dinâmica (forte e fraco). Nós pedimos que elas dessem as “entradas” para os instrumentos, ou seja, apontassem para aqueles que deveriam tocar e também realizassem o “corte” (momento em que todos deveriam para de tocar). Apresentávamos ali um conteúdo novo para a turma.
No início desta etapa da atividade eles ficaram um pouco confusos, mas assim que fomos corrigindo e insistindo nesse novo gestual eles começaram a entender a atividade e desenvolver seus próprios gestos e características na forma de reger. Assim: a primeira criança só conseguiu reger as dinâmicas, repetindo o que eles já tinham aprendido com a professora. A segunda criança já passou a fazer gestos representando o tambor e os sinos, apontando para estes. A terceira criança já conseguia dar entrada para os instrumentos e também fazer os cortes. Todas as crianças queriam ser o regente. A pedido das crianças, antes de encerrar a atividade deixamos que elas dançassem livremente a música.
Dessa forma, pudemos perceber como aspectos presentes na atividade favoráveis a esta: o movimento (dança na estátua e no final), o jogo (estátua), a liderança (ser o regente) e o desafio (conseguir realizar os novos gestos), fatores estes que mais motivaram as crianças a participar e empenhar-se na realização da mesma.
Sob a ótica de Vygotsky
Pude notar, neste estágio, desde a observação das aulas de música até a nossa prática com as crianças, vários aspectos da teoria vygotskyana.
As aulas que observei vão ao encontro da teoria psicopedagógica de Vygotsky uma vez que priorizam a vivência e prática e são calcadas na experiência e interiorização do novo, processos essenciais para a aprendizagem (apropriação/interiorização). Além disso, a professora parte da bagagem dos alunos e de seu contexto para organizar seu trabalho. Isto evidencia-se principalmente em duas ações da mesma:
1)Toda semana um aluno traz algum conteúdo ou prática musical de sua escolha (canta uma música que gosta, traz uma música para todos escutarem, realiza uma performance como percussão corporal por exemplo, entre outras) e ensina para a turma.
2)Monta o seu projeto bimestral buscando temas que serão trabalhados com a turma pela professora regular da sala. No decorrer das aulas ela procura retirar elementos que havia elaborado para preencher com sugestões e ideias dos alunos.
Essas práticas que partem dos conhecimentos espontâneos/cotidianos, como os denomina Vygotsky, estão relacionadas a áreas de interesse e necessidades cotidianas das crianças, o que atua de forma a impulsionar e promover a aprendizagem. Assim, esta bagagem proveniente dos próprios alunos torna-se um material que possibilita a ponte com os novos conteúdos e conhecimentos a serem transmitidos para e construídos com as crianças, ou seja, o aprendizado formal.
Este processo - que auxilia na pesquisa das preferências musicais do aluno, o que ele é capaz de executar ou não, o que ele pensa sobre música, enfim, conhecê-lo - permite que o professor atue na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) da criança facilitando o desenvolvimento de seus potenciais. Afirmam Benedetti e Kerr:
“Cabe ao professor reconhecer as características da ZDP de cada aluno e conhecê-las inclui conhecer seus gostos e preferências musicais, seus hábitos de escuta, seu universo musical cotidiano de referência, seu repertório, a maneira como esse aluno se relaciona com a música e os sentidos que as práticas musicais apresentam em sua vida. Essa primeira investigação revelará ao professor quais conceitos musicais o aluno possui, que noções dos fenômenos sonoros e musicais traz consigo e quais precisa adquirir, ampliar ou transformar”.
Um aspecto base da psicologia Sócio-histórica de Vygotsky que também pode ser observado é o contexto social como alavanca propulsora da aprendizagem. As práticas coletivas eram extremamente valorizadas facilitando o entendimento e apreensão do conteúdo. Além disso, é fundamental para um músico o saber tocar em grupo, o que é extremamente diferente de tocar sozinho, ainda que a mesma coisa esteja sendo tocada.
Um fato que chamou minha atenção e está também relacionado a este aspecto era o ensino de flauta doce. Quando a professora notava algumas crianças que não estavam acompanhando a turma na execução de músicas neste instrumento, ela pedia a crianças que já estavam tocando com facilidade que ajudassem um amigo com dificuldades. Esta interação é muito valorizada por Vygotsky pois, dessa forma, os indivíduos interatuam das ZDP’s dos outros e a assim aqueles com mais dificuldades podem elaborar o que não conseguiam sozinhos, interiorizando o conteúdo, e aqueles que ajudam podem desenvolver novos conceitos, reestruturar suas concepções, sistematizando-as e partilhando-as.
Em relação à atividade que realizamos, ficou clara a necessidade de conhecer a ZDP dos alunos e o quanto ela pode influenciar na motivação dos mesmos. Por não sabermos os conhecimentos que as crianças apresentavam na execução de células rítmicas, elaboramos algo bem simples para que elas tocassem nos tambores e sinos. Pude notar que as células foram muito simples para o grau de conhecimento que elas apresentavam e logo aquilo se tornou desinteressante. Na brincadeira do regente, por outro lado, partimos de um conceito já conhecido por elas e colocamos novos elementos desafiadores, o que aumentou o interesse e motivação para a atividade consideravelmente.
Assim, fica claro que, quando os conteúdos trabalhados estão aquém da ZDP das crianças, a atividade geralmente torna-se desinteressante devido à falta de estímulos. Em contrapartida, se os conteúdos estiverem além da ZDP da criança, a incompreensão gerada também atua desestimulando o processo de aprendizagem. O ideal é que os conteúdos e a forma de apresentação dos mesmos estejam na ZDP do aluno, de forma que ele possa entender, estabelecer um vínculo com a sua realidade e seja, ao mesmo tempo, desafiador, incentivando-o a compreender e interiorizar os novos conhecimentos.
Referências
BENEDETTI, Kátia S. KERR, Dorotea M. A psicopedagogia de Vygotsky e a educação musical: uma aproximação.
CORREIA,Mônica F.B., LIMA,Anna P.B., ARAÚJO, Claudia R. de. As contribuições da psicologia cognitiva e a atuação do psicólogo no contexto escolar.
VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
Renata, bem legal a oportunidade de fazer seu estágio nas aulas de música. Acredito que sua experiencia agrega bastante para o grupo da EL874 J.
ResponderExcluirbeijos,
Bruna La Serra (059276)
Muito interessante a proposta! Fiquei surpresa também com o modo com que a escola trata as aulas de música: te rum lugar próprio, instrumentos e outros materiais para se trabalhar na aula de música. Minha mãe é professora de música em Vinhedo, e mesmo sendo uma escola particular, ela enfrenta muito o problema de não ter um espaço apropriado para trabalhar com as crianças: muitas vezes tem que ficar dentro da sala de aula, e o material que ela utiliza com os alunos são (na maioria das vezes) dela mesmo, não são oferecidos pela escola.
ResponderExcluirOutra dificuldade que minha mãe tem é que a disciplina de música parece não ser considerada uma disciplina. Se por acaso um aluno fica com nota baixa, os pais reclamam, sempre argumentando que não faz sentido nota baixa em aula de música. É uma perspectiva de que as únicas matérias sérias são física, química, português, história, mas não música.
Gostei muito da sua proposta de intervenção!
Mara Ferreira Alves (082086)
O estágio com alunos de música me parece ainda mais passível de uma "investigação" diferenciada.
ResponderExcluirÉ dito por muitos especialistas que o aprendizado musical ajuda no aprendizado convencional da escola regular.
Gostei do método da professora, que tenta ser atual para manter o interesse dos alunos nas aulas, mas sem deixar de estudar os grandes nomes que foram e continuam sendo referência na área musical.
Achei válida a brincadeira. Mexer com vários aspectos serve para saber a experiência dos alunos e pensar em novas atividades, que, infelizmente,vocês não tiveram tempo de realizar.
Rafael Takahashi (082584)
É isso pessoal! Tb concordo com vcs...
ResponderExcluirRenata, vc clareou muito bem essa relação da ZDP com a motivação. Foi "no ponto"! Seu trabalho está muito bem articulado, aliás.
Deixarei comentários específicos no Ensino Aberto tb, ok? Veja lá...
Heloísa