RELATÓRIO FINAL DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO II – EL874
Aluna: Adriana Barreto RA: 080478
Meu estágio foi feito no Colégio Progresso Campineiro, acompanhando a professora de música. Faço licenciatura em música e fiquei muito feliz em poder fazer estágio em minha área de atuação, foi muito enriquecedor para mim, principalmente porque a leitura recomendada pela professora (pedagogia de Vygotsky) veio muita a calhar com a educação musical, não imaginava que seria tanto. Infelizmente o meu conhecimento desta teoria era ínfimo, portanto pude aprender muito ao comparar as atividades feitas em sala de aula com os princípios da psicologia sócio-histórica.
Fiz estágio com outra aluna desta classe. Fomos muito bem recebidas pela professora que acompanhamos, Silvia Beraldo. Não tive muito contato com a diretoria da escola, apenas com a professora mesmo. Em meu primeiro dia de estágio ela fez questão de mostrar todo o espaço físico da escola, que é impressionantemente bem estruturado. É uma escola que possui turmas desde berçário até o ensino médio. Possui biblioteca, laboratório de informática, anfiteatro, quadra poliesportiva, sala de música, enfim uma escola que em alguns aspectos é utópica.
As aulas de música na escola são semanais e tem 50 minutos de duração, são realizadas na sala de música. Acompanhei as turmas do 2º, 4º e 5º ano (seis a dez anos de idade).
A sala de música conta com variados instrumentos de percussão, teclado, som, lousa, um laptop com DVD para apresentação de vídeos, flautas. Não é muito grande, mas comporta bem os alunos que cada classe tinha. Para Vygotsky que o fator mais importante no processo de ensino-aprendizagem é o meio social, definindo o educativo como aquele que é sistematizado, planejado, estruturado, organizado, de maneira a promover experiências de ensino-aprendizagem que potencializem as possibilidades de desenvolvimento da criança. Pude perceber que esta escola possui uma grande preocupação com isso, porque é muito difícil encontrarmos uma escola que disponibilize tantos recursos para aula de música.
Nas aulas havia momento para apreciação e conhecimento de repertório, teoria musical, execução de instrumento, percepção auditiva, ritmo e criação. Citarei alguns exemplos de atividades e tento aqui fazer um link com a psicopedagogia de Vygotsky.
Baseado no estudo de Vygotsky, o desenvolvimento e a gênese do psiquismo humano é conseguido através da capacidade humana de se apropriar da bagagem sociocultural acumulada, é, portanto uma aquisição cultural. Nas aulas de música (e não apenas, mas focarei em música, pois é minha área de estágio) há uma troca importantíssima entre alunos, alunos-professor, professor-alunos, que fazem parte de um processo que desembocará no conhecimento, logo no desenvolvimento de cada indivíduo ali representado.
A professora faz um planejamento bimestral, e neste planejamento há peça que será ouvida pelo menos quatro vezes, seja através de um vídeo, seja apenas o áudio, mas fazendo algum tipo de interpretação cênica, ou até mesmo dança. É ensinado também o contexto histórico, o nome do compositor uma breve biografia do mesmo, claro que a forma de expor este conteúdo mais específico, era reformulada de acordo com a idade da turma. Essa repetição é para que as crianças memorizem a peça.
Em Alguns casos, a peça escolhida para apreciação era ensinada para execução na flauta-doce. Neste momento a professora utilizava a imitação para ensinar. Sempre havia uma demonstração de como as notas eram feitas na flauta. Por um momento todas as crianças tocavam a melodia da peça na flauta, este era um momento em que a professora aproveitava para ensinar, além das técnicas do instrumento, alguns conceitos teóricos de música, como figura de nota e seus valores, grave e agudo, entre outros. Havia outro momento em que ela dividia a turma em grupos, em que alguns tocavam flauta, e os outros se dividiam em instrumentos de percussão, porém ela sempre revezava os alunos (quem tocava flauta passava para percussão, por exemplo). Era um momento que ela passava outros conceitos musicais, além da experiência de tocarem em grupo, algo que estimula sobremaneira o senso de coletividade, a concentração, e a percepção.
Segundo Vygotsky a aprendizagem não é o desenvolvimento em si, mas sim uma fonte, um elemento que ativa processos psíquicos que a criança traz em potencias e que levam ao desenvolvimento, criando assim o conceito de ZDP (zona de Desenvolvimento Proximal). Esta seria a janela para o desenvolvimento psicointelectual, pois as características da ZDP de cada criança determinarão as possibilidades de desenvolvimento. E esta está intimamente relacionada com a capacidade de imitação da criança, pois pressupõe a capacidade de compreensão dos fenômenos. Nas aulas de música muitas vezes é necessário realizar que o professor demonstre o movimento que deve ser realizado para a execução de um instrumento. E era exatamente o que acontecia nas aulas, não apenas para demonstrar as posições da flauta-doce.
Outro momento da aula, muito interessante: cada semana uma criança ficava responsável por levar algo musical de seu cotidiano, podendo ser uma música, um jogo com copos, uma percussão corporal. Neste momento ela trabalhava em cima do que o aluno levava. Muitas vezes nas aulas seguintes ela voltava a trabalhar temas parecidos com os levados pelos alunos em outras datas, e aproveitava o material para ensinar conceitos musicais. Apesar de Vygotsky valorizar sobremaneira as situações formais de ensino aprendizagem, no texto que li[i], as autoras comentam que as práticas e conhecimentos musicais do cotidiano podem agir no nível de desenvolvimento potencial dos alunos, impulsionando seu desenvolvimento psicointelectual e musical na medida em que tais práticas apresentem conteúdos novos que ampliam a bagagem de conhecimento/desenvolvimento efetivo dos alunos, portanto agem na ZDP, logo, promove desenvolvimento. Mas é preciso cuidado, pois quando não trazem mais nada que desafie a bagagem de conhecimento do aluno, essas práticas musicais cotidianas não geram desenvolvimento, apesar de carregarem em si uma carga motivadora muito maior que as experiências formais. Cabe ao professor saber utilizar de maneira positiva esta prática cotidiana de forma que gere conhecimento e logo desenvolvimento. O que eu pude perceber durante o estágio foi exatamente isto acontecendo. A professora abria um espaço para que os alunos levassem as aprendizagens musicais cotidianas para dentro de sala, como um fator motivacional, e utilizava-o para gerar novos desafios e com isso conhecimento.
Outro ponto forte do semestre para mim foi à questão da criação. NO final do semestre ela trabalhou bastante a criação nas turmas de quarto e quinto ano. Sabendo que para Vygotsky a criação humana é uma função psicológica comum a todos e que acompanha normal e permanentemente o desenvolvimento infantil, acho importante a abordagem e o estímulo dado nesta instituição. O mesmo autor defende que o sentido e a importância de se promover a criação artística na infância residem no fato dela auxiliar a criança na superação da estreita e difícil passagem ao amplo funcionamento de sua imaginação, e também porque ela profunda e ao mesmo tempo flexibiliza sua vida afetiva, despertando-lhe o interesse para o engajamento em atividade socialmente relevante. Outro ponto é que esta criatividade estética permitirá à criança exercitar desejos e formar hábitos, dominar o funcionamento da representação simbólica na linguagem, formular e transmitir ideias, lhe ajudando no desenvolvimento de pensamento.
Aprendi demais neste estágio, poderia relatar e relatar e relatar várias páginas da vivencia riquíssima que tive lá, e ainda relacionar cada atividade com os ensinamentos de Vygotsky, mas acho que não cabe neste relatório, portanto agora falarei um pouco da intervenção que propomos na escola.
Na verdade a intervenção que propomos inicialmente não pudemos realizar por causa do fim de ano (e os preparativos para as festas de fim de ano da escola). Fizemos uma intervenção apenas com o quarto ano. Nosso foco nesta intervenção foi muito mais para uma análise do conhecimento das crianças, o que elas apreenderam de tudo que foi dado durante, não apenas o semestre que estivemos na escola, mas também durante o ano.
Aproveitamos o tema natal que estava sendo trabalhado, levamos uma música do cotidiano deles, inclusive alguns estavam cantando no coral da escola esta peça. Fizemos três atividades baseadas nesta peça: primeiro ouvimos a música e brincamos de estátua instrumental (ao parar a música devíamos parar na postura de tocar um instrumento que conseguimos ouvir na música), depois tocamos e cantamos a música em instrumentos de percussão, e por fim fizemos a brincadeira do aluno-regente.
Para finalizar nós fizemos um breve bate-papo com os alunos para sabermos do que mais gostaram, o que aprenderam de novo e o que fariam diferente nas atividades. Na verdade nossa intervenção foi mais um feedback para nós professores.
O que levo desse estágio, é que a seriedade, o compromisso com o que se faz, o conhecimento trazem grandes resultados na vida das crianças. Sei que esta é uma escola longe dos padrões mais comuns em nossa sociedade, mas mostrou-me que é possível. Uma vez a professora em uma de nossas conversas disse que não há milagre no trabalho dela. O que há é perseverança e trabalho de formiguinha, pois a maioria daqueles alunos (que em minha opinião são muito bons musicalmente) estuda com ela desde dois anos. Pude perceber que ela trabalha fincando raízes sólidas de conhecimento nessas crianças. E o fruto colhe-se quando ela pede para criarem uma música simples de natal, ouvimos uma mescla de sons, ritmos, letras, todas muito belas, e algumas até musicalmente complexas para idade. É ou não é um privilégio?
[i] Benedetti e Kerr (p.84)
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
· BENEDETTI, Kátia Simone; KERR, Dorotea Machado. A psicopedagogia de Vigótski e a educação musical: uma aproximação. Disponível em: <http://www.artenaescola.com/links/documentos/Marcelina3_80-97.pdf>. Acesso em: 25 out. 2011.
· VYGOTSKY, L.S. Psicologia da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
· VYGOTSKY, L.S. Educational psychology. Boca Raton, Florida: St. Lucie Press, 1997.
Adriana, muito bacana mesmo a questão de cada semana uma criança ser instigada a levar algo musical de seu cotidiano. Gosto dessa idéia e foi bacana sua discussão sobre a criação baseada em Vygotsky. Sem criação não há imaginação e, consequentemente, não há desenvolvimento!
ResponderExcluirCom certeza sua experiencia foi um privilégio!
bjs,
Bruna
Adriana, vc faz articulações bem interessantes entre a prática e a teoria vygotskiana. Muito bom o seu trabalho!
ResponderExcluirDeixarei comentários específicos no Ensino Aberto, ok?
Heloísa