A escola
A escola onde realizei o Estágio II foi o EMEI xxxxx. Ela fica situada na xxxx, que é um bairro simples, porém ainda bem localizado, com acesso à cidade e à estrada. O contraste é interessante porque o colégio simples e bairrista fica rodeado de condomínios e residenciais. De um lado temos a cidade e vemos os residenciais xxxx e do outro lado da pista vemos o grande condomínio xxxx.
Apesar de ser um colégio simples, ele possui uma boa estrutura. Um guarda cuida da entrada do colégio, o parque tem muitos brinquedos e até uma casinha lúdica, as classes são alegres e enfeitadas, o refeitório é organizado e possui uma Tv com vídeo (onde na hora da merenda as crianças vêem desenhos), a cozinha é boa e os banheiros são higiênicos. A biblioteca é um pouco ruim e é improvisada, os livros e brinquedos utilizados na alfabetização me pareceram todos resultado de doações (livros repetidos, brinquedos quebrados). A escola me surpreendeu porque se mostrou alegre e organizada, porém dentro dos limites de uma escola da Prefeitura.
Optei por uma escola de ensino infantil da rede estadual para poder contrastar com minhas experiências anteriores. Já tinha acompanhado aulas de sociologia com adolescentes em escola pública, outras disciplinas com pré adolescentes de escola particular e cheguei à conclusão de que agora era o momento certo para analisar a Educação Infantil.
Confesso que foi a melhor coisa que fiz, porque até hoje, mesmo tão perto de me formar em Licenciatura ainda não tinha a certeza de que era isso que eu gostaria de fazer em minha vida profissional. Ser professora? Me parecia algo um pouco árduo demais, já que venho de uma família de professores e acadêmicos. Porém, nesta experiência com os “pequenos” descobri meu nicho de interesse e o que realmente me inspira dentro da educação. Acredito que apesar de estar com os alunos praticamente poucas vezes por semana, consegui desenvolver um bom trabalho e a professora Rosangela, responsável pela classe, disse que eu tinha muito jeito para a Educação Infantil.
Honestamente, agora sinto muita falta dos alunos, da particularidade de cada um, dos desenhinhos, das flores que ganhava na hora do parque, dos abraços tão puros, dos ensinamentos que eu dava e eles acatavam com respeito, da maturidade inesperada que eles revelavam me surpreendendo e da interação profunda que eles me permitiram. Foi uma experiência muito positiva e que com certeza será decisiva para meu futuro.
Descrição da classe/alunos
A classe acompanhada foi a “Turma do Macaco” (cada classe é um animal), com alunos de 3 a 6 anos- denominada pela prefeitura como Agrupamento III. Acompanhar uma turma tão mista e heterogênea foi muito importante para a reflexão levantada.
As crianças em geral são de famílias de baixa renda (o que poderá ser percebido na intervenção quando eles mostram que uma das coisas mais importantes no colégio para eles é a comida), moram com muitos irmãos e às vezes com outros parentes. O nível de instrução dos familiares é de no máximo 2º grau completo.
Projeto Político Pedagógico
Logo que cheguei para conhecer o colégio a orientadora pedagógica me mostrou o PPP com bastante orgulho. Ele era enorme e me pareceu apenas um troféu sem utilização real. Porém ao longo do estágio, conversando com as professoras e lendo o material, fiquei surpresa não só com a qualidade como com a utilização prática dele no cotidiano daquela escola.
Todo ano o PPP é refeito, sendo feitos 3 no total a cada ano letivo. Eles possuem um inicial de planejamento e outros dois, um ao final de cada semestre. Logo no começo do ano são feitas reuniões com professoras para planejar as ações do ano, entrevistas são feitas com os pais dos alunos e disso tudo montam-se gráficos e tabelas bastante organizados. Todo o material possuía também embasamento teórico nos principais pensadores da pedagogia e, para meu espanto, tudo possuía muita conexão e não eram apenas informações soltas. Como as professoras participam ativamente do processo ao longo da elaboração dos 3 materiais, todas tem conhecimento do conteúdo e dos direitos e deveres delas e dos alunos.
Questões de linguagem e letramento também são abordadas em um capítulo especial e o que me surpreendeu foi a ênfase que deram à importância do brincar permeando as atividades, sendo um dos objetivos. Descobri ainda que, no fim de cada semestre, as professoras entrevistam seus alunos e este material é compilado, servindo de base para repensar as atividades. A importância do brincar aparecia muito neste material semestral e começou a me instigar.
Inquietação
Partindo dessas leituras do PPP, das leituras da disciplina e do meu conhecimento sobre a Educação Infantil, comecei a questionar porque questão da brincadeira estava sendo tão enfatizada, sendo que deveria ser algo óbvio e intrínseco à educação de crianças desta idade. Porque o colégio queria resgatar este valor? Descobri então que cada vez mais a urgência do letramento e da alfabetização tem sido propulsoras de uma mudança do ensino infantil. Muitas escolas estão antecipando a alfabetização para que os alunos já entrem no 1º ano já com o conhecimento adiantado, o que é um absurdo porque, além de desmotivar os pequenos a irem para a escola, acaba destruindo uma fase de desenvolvimento lúdico e motor fundamental, onde a brincadeira deve ser protagonista.
Conversando com a professora (vocês poderão ver isso no vídeo e na entrevista escrita) ela disse que essa é uma preocupação não só do colégio como de toda a rede da Prefeitura. Ela comenta que eles tiveram até uma palestra a respeito do assunto, colocando a importância da ludicidade, e que ela discorda dessa aceleração da alfabetização.
Neste processo um filme que me inspirou muito foi o “An Invisible Sign-Matemática do Amor” que trata dessas questões e apresenta soluções interessantes, mostrando principalmente que este não é um processo fácil. Vocês podem ver meu comentário sobre o filme aqui: http://el874j.blogspot.com/2011/11/analise-do-filme-invisible-sign.html
Além disso, outro fator foi me intrigando no processo. Os alunos pequenos são realmente ouvidos? Suas necessidades são atendidas ou as professoras se apegam apenas aos relatos dos familiares e os bilhetes do caderno para compreender seus alunos? Porque eu notei que os alunos, por carência ou não, falam o tempo todo sobre suas vivencias pessoais, sobre o que aconteceu em casa, sobre o que querem, o que gostam... (isso aparece na intervenção com desenhos). Isto é considerado?
Muitas vezes, os alunos, por conta da pouca idade, são considerados incapazes de ser um sujeito ativo do processo educacional, enquanto na verdade eles são perfeitamente produtores e reprodutores de cultura. Pensa-se que eles são muito pequenos e, portanto, limitados para dizer corretamente o que sentem, o que querem e esperam da escola e para intervir no ensino. Mas precisamos entender que isto é um equívoco.
Ouvir as crianças é algo primordial no ensino infantil e é surpreendente a capacidade crítica de alunos tão pequeninos (vemos isso na filmagem deles). Para isso, a linguagem é instrumento e matéria prima do processo. Se para Vygotsky “a fala não pode ser descoberta sem o pensamento”, o papel do professor é instigar, mediar e interpretar essas expressões diárias das crianças. A partir disso, o terreno para uma intervenção pedagógica fica muito mais claro e possível.
Dificuldades e mudança de visão
Apesar de todas essas percepções, eu ainda não conseguia imaginar uma intervenção plausível e nem organizar tantos questionamentos soltos que surgiam dia após dia de estágio e isso começou a me angustiar profundamente.
Neste processo, a professora Heloísa permitiu que eu lesse seu artigo- ainda em fase de elaboração- “Repensar o currículo na Educação Infantil: implicações sobre o brincar e a (lingua)gem para/na a construção do Projeto Político Pedagógico” em parceria com a Dra. Neusa Lopes Bispo Diniz. Esta foi uma guinada para organizar minhas idéias e perceber que eu estava no caminho certo com minhas observações.
Na perspectiva Vygotskyana do modelo histórico-cultural o homem é um ser social, ou seja, as relações entre os homens são cruciais para o desenvolvimento. Neste sentido, a atuação e intermédio de outras pessoas são muito importantes para o processo educacional, sendo o professor uma ponte entre o conhecimento e a subjetividade e os limites de cada um dos alunos (conceito de zona proximal). Na educação infantil o professor seria a mediação para despertar o interesse das crianças para que elas façam descobertas, aprendam e se desenvolvam.
Assim, o papel do professor é fundamental para o processo de ensino-aprendizagem e principalmente para propor ações lúdicas e apropriadas para o Ensino Infantil, compreendendo a especificidade e subjetividade de cada aluno, considerando-os sujeitos ativos e participantes. É fundamental conhecer as concepções das próprias crianças envolvidas neste processo, isto é, acima de tudo, parte da função social da escola. É crucial valorizar a infância, sua cultura própria, repleta de brincadeiras, fantasia e movimento.
A intervenção
Após este embasamento teórico, voltei a Vygotsky e consegui desenvolver com mais segurança a minha intervenção. Se os maiores pontos de problemática que eu havia notado eram a falta de diálogo e brincar, eu precisaria envolver estes dois processos na intervenção.
Decidi primeiramente fazer uma roda com os alunos dando espaço para o diálogo, para que eles mostrassem suas opiniões e sentimentos a respeito da escola. Este processo foi filmado com autorização da escola.
Minhas perguntas principais foram uma adaptação do que meu grupo desenvolveu, pois eu fui a única a trabalhar com Educação Infantil:
1-O que na escola deixa vocês alegres?
2-O que na escola deixa vocês tristes?
3-Como seria a escola do sonho de vocês?
Após este diálogo, pedi que os alunos desenhassem o que mais gostam na escola, envolvendo-os numa atividade de ludicidade com papel e canetinha.
Após colher as informações, fiz duas entrevistas com a professora: uma filmada e outra escrita.
Conclusão
Ter a oportunidade de estudar Vygotsky este semestre foi muito importante em minha jornada. A partir dos conceitos de zona proximal e o papel intervencionista do professor como mediador pude ver a escola como um espaço fundamental na construção das subjetividades infantis, sem perder de vista o brincar como parte integrante de todo o processo educativo.
Compreendi a importância de combater o encurtamento da infância pela exigência do letramento na Educação Infantil, permitindo que tenham direito à brincadeira, parte crucial do seu desenvolvimento. Para Vygotsky, a brincadeira é tão crucial quanto era o jogo simbólico para Piaget, ou seja, esta situação lúdica e imaginária permite que a criança avance no entendimento das regras da realidade através do paralelo com a situação de faz de conta.
Nós somos essencialmente seres sociais e, portanto estaremos sempre ressignificando a cultura, imitando semelhantes (a imitação é importante para Vygotsky) para aprender e sendo mediados pela atividade humana. Porém o contato e desenvolvimento não se dá de forma espontânea, “a intervenção deliberada dos membros mais maduros da cultura no aprendizado é essencial ao seu processo de desenvolvimento”. Se compreendermos esta relevância teórica, entenderemos a imensa importância da escola e do educador no processo de ensino-aprendizagem.
Bibliografia
BZUNECK, J. A. “As crenças de auto-eficácia dos professores.” In: SISTO, F. F., OLIVEIRA, G de C., FINI, L. D. T.: Leituras de Psicologia para formação de Professores. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, pp 117-134, 2000.
OLIVEIRA.M.K. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio histórico. SP: Scipione, 1997.
VYGOTSKY, L. S. “Pensamento e Linguagem”. 3.ed. São Paulo, Martins Fontes, 1991.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirBruna, considero que desenvolveu um trabalho muito interessante. Seu texto ficou também bastante claro. Parabéns pelo trabalho!
ResponderExcluirEnviarei, contudo, algumas considerações específicas sobre o relatório (pelo Ensino Aberto), ok?
Heloísa